
ROBERTO ULHOA
portfolio 2026

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Linha d'água.
35x60x45cm,
Óleo sobre papel.
2025

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Cenários,
60x65cm,
Óleo sobre papel.
2024


Formigamento ornamental
Passadas leves trilham um indiscreto caminho por baixo da pele. Um imediato estranhamento gera o calafrio. O calafrio dá vazão
a um lento dilatar. O dilatar então irrompe. Perdem-se os contornos. O rígido agora é mole, o centro se muda para os lados, o plano
é topográfico. Perde-se também a matéria da confiança, uma fragilidade se instaura como estrutura. Há de se descobrir novas formas
de sustentação no mundo.
Falamos da trajetória de uma sensibilidade alterada. Os trabalhos de Roberto Ulhoa são desejos - a princípio, necessidades - de tradução.
O difuso interior se desvela sem se fixar, resistindo às estabilizações. Um novo corpo busca se erguer, composto por partes, restos, cascas
de outras peles. Quatro pontas são quatro orientações, posturas e possibilidades. Quatro pontas são quatro patas, apoiadas como bichos, expostas à vulnerabilidade de sua própria natureza. Não se pode e nem se quer mais ser contido.
“O movimento elimina o frio1” - assim se exercita em direção à conquista de algum conforto, ainda que outro, ainda que precário.
Um grande esforço é desempenhado para atravessar a volatilidade, confrontar a dureza exige sacrifício. Este dispêndio, martírio, se traduz
no símbolo da cruz formado pelos trabalhos. Mas estas são cruzes que se deitam, se equilibram e se torcem em terreno incerto. Suas imagens encarnam o desastre2 como paisagem, formando cenários de deslocamento e desorganização em que a impotência é exposta como víscera.
Aparições históricas e políticas revelam sistematizações maiores. Cenas estranhamente familiares, de alguma forma presentes no inconsciente coletivo, mapeiam ideias acerca da saúde e da sanidade. Nos estandartes que se levantam, lemos uma trajetória de institucionalização dos corpos desviantes. A lida com estes outros órgãos é também tomada pelo rigor e o desarme.
O formigamento se dá no campo da presença - da experiência direta e imediata. O campo do sentido o traduz em ornamento.
No trabalho de Roberto Ulhoa, a presença é o sentido. O formigamento é ornamental.
Bia Coslovsky
2 Blanchot, A Escritura do Desastre
1 Arnaldo Antunes, Pra não falar mal

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A constituição.
60x65cm,
Óleo e acrilica sobre papel.
2014

A série “Estandarte de 4 pontas” vem sendo desenvolvida desde 2012.
É composta por trabalhos feitos no verso de caixasde remédio. Essas caixas quando abertas adquirem a forma de cruz, mas também de estandartes.
É nesse espaço branco da parte de dentro das caixas que na pintura o artistas faz
um convite para embarcar em uma pesquisa a respeito do sujeito que habita o corpo.
A caixa aberta autoriza aos olhos o acesso a esse lugar privado, noturno, inflamado.
Trazendo a pintura como um dispositivo de reflexão sobre como ressignificar sintomas, angústia e vulnerabilidade em processos criativos.
Esses trabalhos são o resultado de uma investigação intimista acerca do adoecer
e do viver com esclerose múltipla.
É uma documentação desse ambiente psíquico, da sensibilidade alterada, de dores invisíveis, suspense e imprevisibilidade.


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Fio
60x65cm,
Téc. mista sobre papel.
2016

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Formigamento ornamental,
60x65cm,
Aquarela, acrilica e grafite s/ papel.
2014

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Efeitos genéricos,
27,5x50cm,
Téc. mista sobre papel.
2022


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Irremediável.
60x65cm,
Téc. mista sobre papel.
2024

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Emergência e exagero,
60x65cm,
Téc. mista sobre papel.
2015

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Cabo de guerra.
65x60cm,
Téc. mista sobre papel.
2024

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Livros de cabeceira
e imãs de geladeira ,
60x65cm,
Téc. mista sobre papel.
2024

1981, Natural de Brasília (DF), Ulhoa vive e trabalha em Niterói (RJ). Formado em Comunicação Social pela ESPM-RJ (2007), atuou como diretor de arte por 17 anos antes de dedicar-se integralmente à carreira artística a partir de 2023.
Sua relação com a arte iniciou-se em 1999, quando passou a frequentar ateliês de desenho e pintura.
Destaca-se sua passagem pelo Ateliê Long River (2015-2019), sob orientação de Fred Carvalho, no Rio de Janeiro (RJ), e nos encontros de Desenho do C.C.B.C. (2015-2019), com Cláudio Valério Teixeira, em Niterói (RJ).
Sua pesquisa se desenvolve através da pintura e vídeo.
Em seus últimos trabalhos relata temas como desconexão entre percepção e realidade. O estranhamento do próprio corpo, a sensibilidade alterada. O cotidiano acerca do adoecer e do viver. Se interessa pela documentação desse ambiente psíquico da instabilidade, dos sintomas antecipados, da imaginação inflamada. Como suporte, Ulhoa apropria-se das caixas dos remédios que toma diariamente.
Ulhoa participou de exposições coletivas, como a Bienal Caixa de Novos Artistas (2016-2017), que circulou por todas as unidades da Caixa Cultural; e Quizumba, no Corredor Cultural do MPRJ (2018).

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Reserva.
60x65cm,
Téc. mista sobre papel.
2025


Carranca
60x65cm,
óleo sobre papel.
2025

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Hiato e desenvolvimento
60x65cm,
Óleo sobre papel.
2016


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Gene deletério,
60x65cm,
Téc. mista sobre papel.
2024

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Ad nauseam,
60x65cm,
Téc. mista sobre papel.
2016

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Vazante,
55x31,5cm,
Téc. mista sobre papel.
2024

